Depois de anos de Importação

Depois de anos sentado naquela velha poltrona de couro preta e desgastada ele sentiu medo pela primeira vez. Não medo de alguém, ou de alguma doença que pudesse levá-lo desta para uma melhor, mas medo de não ter o que fazer. Vinte e cinco anos, sete meses, doze dias, quatro horas e alguns minutos em que nenhum segundo de sua vida foi dedicado a outra coisa que não os negócios. Seu nome, não era tão importante quanto seu cargo: Presidente Internacional de Importações, ou, como os seus sócios o chamavam, senhor importação. Como os demais homens poderosos, começou do nada e chegou a tudo, mas agora, enfrentava seu maior dilema, abrir mão de tudo o que construiu com elas. O exame ainda repousava sobre a mesa entreaberto com a palavra positivo à mostra.

A notícia da Cegonha Importadora já era esperada, mas ele não imaginava que ela pudesse abatê-lo como o gado catarinense que ele mesmo surpervisionava o envio para a China. Achou que talvez tivesse mais tempo, que talvez, todo seu dinheiro pudesse comprar alguns meses a mais, o suficiente para deixar as coisas em ordem, mas não. O aviso trazia a notícia que tanto temia, seu tempo de vida, e não era muito. Mas o pior não era saber sobre o encurtamento de seu tempo na vida, com a quantidade de cigarros tragados e álcool ingerido em suas reuniões para fechar negócios, sabia que este seria seu destino cedo ou tarde. Só não imaginou que seria tão cedo. E, portanto, abandonar a única coisa que trazia um sentido para sua vida solitária e vazia, seu trabalho.

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Acendeu um último cigarro e pensou que naquele ponto mal ele não poderia fazer. No instate e que a fumaça inebriante tocou seu pulmão a tosse tomou conta da sala. A dor excruciante em seu peito aumentou e foi levado ao chão tão rápido que imaginou uma tonelada de suas cargas amarrada em suas costas. Curvou-se com os movimentos de seu peito desesperado por oxigênio. A cada suspiro que aliviava sua dor um aperto no peito dava o troco dez vezes pior. Finalmente viu sua empresa crescendo ao longo dos anos diante de seus olhos. As conquistas de mercado, os tratos assinados, os prêmios, o reconhecimento. E finalmente parou de se contorcer. Seus olhos vermelhos e saltados ainda encaravam uma pequena placa sobre a mesa que reluzia com o sol de fim de tarde: Sr. Importação.

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